quinta-feira, 18 de abril de 2013

NÃO FAÇA PROMESSAS.

Foi ali, exatamente ali naquela mesa, que nós completávamos cinco dias de namoro. Você me chamou para almoçar, e eu tentei recusar o pedido alegando falta de dinheiro. Não adiantou. Chegando lá, nós pedimos uma porção de filé, arroz e salada. Dividimos uma jarra enorme de suco de goiaba, minha fruta favorita. Sua fruta favorita, também. Você me contava sobre a sua viagem para o Peru, e eu ficava encantado com o jeito como você articulava. Os detalhes entregavam que você gostava de mim, de verdade. Mas o que é uma certeza para quem está apaixonado? Vemos e sentimos aquilo que queremos, não aquilo que se é, de fato, transmitido pelo outro. Garanto que o casal da mesa ao lado, o via como uma pessoa que relata um acontecimento qualquer. Aquele sorriso enorme estampado na minha frente só existia pra mim. Para o casal, você gesticulava pouco. Na minha visão, você se levantava várias vezes da mesa para mostrar exatamente como pulava durante um show de rock. Aquilo tudo, provavelmente, era a minha expectativa que tomava uma proporção tão grande que se tornava um holograma do que eu queria, não de quem estava ali na minha frente. A pessoa que eu procurava não estava ali, não era você, mas eu não sabia, ninguém nunca sabe o tempo que dura o efeito de uma carência exacerbada. Contei para todo mundo que era a primeira vez que eu amava alguém de verdade, e não menti. Mas hoje eu sei que boa parte desse amor, era um bocado de desamor de mim. E boa parte do que tu dizias sentir, era amor pelo seu ex, que você queria porque queria redireciona-lo para outra pessoa, nesse caso, eu. Terminamos de comer. Começaram os planos, as promessas, as futuras viagens, a casa de sapê. Você disse que nós iríamos para o Peru nas suas férias do trabalho e nas minhas da faculdade. E veja bem, ainda faltavam mais de quatro meses até a metade do ano dar o ar da graça. Quase te interrompi no meio da sua promessa, mas não consegui mover os lábios, muito menos balbuciar qualquer palavra que fosse. Não deu um mês para que você fizesse tudo ao contrário. A fidelidade, o compromisso, o respeito, a ética, o caráter. Todos eles deram as mãos e se jogaram em uma enorme poça de lama. Os respingos, lógico, sobraram pra mim. Sempre sobram. Hoje eu não sei por onde você anda, nem se anda para algum lugar. Quando te conheci você estava mais perdido que o Médico, em Ensaio sobre a Cegueira. Na época, eu quis me matar pelo término. Eu quis fazer greve de fome. Eu quis desistir da faculdade. Eu sentava no chão do quarto e colocava a mesma música melancólica para repetir dezenas de vezes. E chorava dezenas de vezes. Depois que o torpor acaba, a gente só sente vergonha de si mesmo. Como eu pude ser tão dramático? Dada a circunstância atual, te digo: foi tão bom me livrar de ti. E te aconselho: por favor, não faça promessas. Esse não é o teu forte.

11 comentários:

  1. Encontrei seu blog por acaso, numa lista com tantos outros e eu poderia ter lido muitas outras histórias no lugar dessa. Mas que acaso doce não é? To apaixonada por aqui, adorei o texto, escreves muito bem! Também escrevo, tem texto novo lá no meu blog, te convido a me visitar, espero que leia e que goste, e que se gostar fique.
    Estou seguindo, lendo , relendo, e me vendo nos textos sempre.

    Um super beijo.
    http://venenosemacas.blogspot.com.br/

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    1. Puxa, Tainá. Fico imensamente lisonjeado com as suas palavras. Com certeza irei visita-la.

      Grande beijo, felicidades!

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  2. CARALHO, João! Infelizmente já me deparei com uma menina com o mesmo defeito do rapaz que citou em seu texto e tive a reação, primeiro muito drama, depois vergonha de mim mesmo, agora de bem com a vida!

    Muito amor pra nós (verdadeiro, por favor)
    :*

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    1. Sim, Letícia! Muito amor verdadeiro pra gente :)

      Grande beijo. ;*

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  3. "Mas o que é uma certeza para quem está apaixonado? "
    Certamente. As ilusións pódennos enganar.

    (E a mención a Saramago lémbrame que aínda teño esa obra a medio ler xD)

    O principio tan encantador e tenro, tan conmovedor... tan doce... A cada momento que pasa vaise facendo triste e desconsolador. ¡Quixera o que le darche un abrazo para te consolar! Para acabar cunha fin mordaz e mesmo graciosa. É xenial. A verdade é que non sei se os teus relatos son tan interesantes porque ti os fas interesantes ou porque son as vivenzas dunha apaixonada persoa (e a realidade sempre supera a ficción). En todo caso, sempre me gustan moito as túas pasaxes =)

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    1. leia. não sou um grande seguidor de Saramago, apenas li esse livro e assisti sua adaptação para o cinema. não sei se os outros são bons, mas "ensaio sobre a cegueira" é ótimo, te põe pra refletir. em relação aos textos, acho que eles acabam ficando interessantes porque a maioria são relatos verídicos. acho que isso acaba me aproximando um bocado dos leitores.

      no mais,
      muito obrigado por suas críticas e opiniões. és sempre bem vindo!

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  4. P.S. Que lle den ó desgraciado ese. Así lle fagan o mesmo.

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